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O Desejo na relação de casal



Este texto é um excerto de um trabalho desenvolvido numa formação no âmbito da Terapia Familiar.


O desejo de ambos os parceiros na relação de casal, um tem muito requisitado em clínica privada. O peso que o desejo, nas suas variadas apresentações (por excesso, défice ou mesmo ausência) tem numa relação de casal, levou-me a querer saber mais sobre este tema que é tão complexo.

Tenho lido livros, artigos, tudo o que me faça entender um pouco mais esta emoção, tão desejada e aparentemente tão difícil de manter, de forma equilibrada e harmoniosa, num casamento.

Ao longo das minhas leituras fui pensando e sentido diversas coisas.

Com todas as mudanças relacionadas com a vivência da sexualidade, que deixa de ser exclusivo para procriação e passa a ser para obtenção de prazer, entramos num novo paradigma, no que diz respeito à Sexualidade no Casal. O aparecimento da pílula mudou a forma como os casais, e principalmente as mulheres, vivem a sua sexualidade. Assim, o acto sexual foi libertado do medo de poder engravidar, deixando espaço para a vivência e a satisfação de inúmeras outras necessidades, entre as quais o prazer.


Como refere a OMS, a sexualidade é “Uma energia que nos motiva a procurar Amor, contacto, ternura, intimidade, que se integra no modo como nos sentimos, movemos tocamos e somos tocados; É ser-se sensuale ao mesmo tempo sexual; ela influencia pensamentos, sentimentos, acções e interacções, e por isso influência também a nossa Saúde física e mental.

Começo com esta definição, talvez para justificar a importância que dou à sexualidade no casal. É também um dos motivos de grande procura em clínica privada, vestindo, muitas vezes, a forma de falta de desejo, maioritariamente sentido pela mulher.

O que significará esta falta de desejo? É normal? Será que existe amor sem desejo? É importante o desejo para a sexualidade no casal? O que fazer para prevenir a falta de desejo, ou para ajudar a recuperar o desejo?


Alguns autores têm-se debruçado sobre os vários fatores que interferem no desejo sexual do casal: o nascimento de um filho, stress, trabalho, cansaço, as mudanças físicas, o desporto, a alimentação, problemas familiares, financeiros, laborais, de saúde, traumas, a intimidade, satisfação sexual, erotismo, criatividade, tipo de comunicação. É sempre importante considerar a fase do ciclo de vida em que o casal se encontra, aquilo que era, considerado, pelo casal, a fase boa, quando começou a descarrilar e possíveis desencadeantes, e por fim o que desejam que seja o futuro. As narrativas podem diferir, o casamento nem sempre, é vivido pelos dois da mesma forma, e é comum haver perspectivas e sentires diferentes. Parece-nos que o importante é existir uma aceitação do sentir do outro, uma predisposição para fazer algo diferente, para arriscar, para mudar rotinas, para criar.


O Philippe Caillé (1991) traz-nos a ideia do 1+1=3, de que este um mais um, cria uma terceira entidade que não é imutável, muito pelo contrário, está em constante mudança, é bastante complexa, mas que sendo conhecida, estudada, será um elemento fundamental na terapia de casal. Faz alusão ao termo “instituição quando se refere ao casal:

“... a metáfora da instituição parece-nos muito útil, por estabelecer uma distinção clara entre a identidade do casal e a dos dois indivíduos que lhe dão existência. Se o casal é uma instituição, é preciso distinguir, de um lado, essa instituição, com os seus estatutos e a sua finalidade, e de outro, os membros que a compõem, além de definir a relação existente entre a instituição e os seus membros.” (Caillé, 1911; pág.37;).


Este pensamento é muito importante para nós terapeutas familiares, embora possa parecer mais complicado, é importante olhar para o 3, para esta “instituição”. É complexa, mas a sua compreensão será fundamental para o processo terapêutico.

É importante perceber que o casamento dos dias de hoje mudou muito. E por isso consideramos relevante fazer uma breve análise histórica. Ainda não há muito tempo, os casamentos seriam para toda a vida e não podiam ser dissolvidos. Era neste matrimónio que a identidade de pessoa adulta e posição social eram descobertas. Para as mulheres o papel central era a maternidade, e para o homem, o de provedor da família. Foi com a Revolução de Abril de 74 que se verificou uma grande mudança na formação do casal. O casamento por amor, torna-se mais importante do que o casamento por interesse em manter ou aumentar o património, e em prol das “boas famílias”. A partir desta data, as mulheres lutaram pela igualdade de direitos, não só na sociedade, na família, como também vivência da sexualidade. Depois do fim da ditadura, surgiram várias formas novas de viver a conjugalidade e é muito importante entender essa evolução para trabalhar com os casais dos dias de hoje. Como nos disse o o Prof. Daniel Sampaio (2012) “pouco valorizada no passado, a procura de satisfação sexual dos dois elementos do casal é um traço dominante nas conjugalidades contemporâneas.” ( págs 15 e 16).


Como refere Aboim (2013), “ A erosão do casamento como instituição concedeu, de facto, uma grande centralidade à relação vivida a dois, erotizando o casal, que se quer sexualmente feliz.” (pp.79) . O erotismo, o prazer, a satisfação sexual, a vivência da sexualidade, principalmente a das mulheres, passam a ganhar destaque na sexualidade do casal, que estava centrada na procriação. Desta forma, a sexualidade do casal contemporâneo, passa a ser bastante importante e muitas vezes quando não é vivida com satisfação por ambos, revela que algo no casal poderá não estar bem.


Então o que é preciso para que exista satisfação sexual no casal? Segundo um estudo de revisão de Imppett, Finkel, Stachman et Gable, (2008) a falta de desejo sexual é dos problemas mais apresentados em terapia. Vários questionários aplicados demonstraram que o desejo sexual, e a satisfação sexual e a frequência reduz conforme aumenta o tempo da relação. Outros estudos documentaram que a satisfação sexual está também associada à satisfação no casamento. Alguns terapeutas sexuais também perceberam que uma boa satisfação sexual contribui substancialmente para um vínculo conjugal. No entanto, uma sexualidade não existente ou disfuncional pode influenciar a intimidade, satisfação e estabilidade no casal. Ainda neste estudo referem que os homens demonstram mais interesse em sexo do que as mulheres, pensam mais em sexo, manifestam terem mais fantasias sexuais. Num casamento, quando não existe concordância na frequência, por norma, os homens querem mais do que as mulheres. Para além disso, o desejo sexual das mulheres, está mais correlacionado à vivência, dinâmica da relação, no casal do que o dos homens. As mulheres parecem à partida mais atentas ao 3º elemento de que fala Caillé, mas na realidade, este 3º elemento, a relação, é importante para ambos. Se tivermos em consideração a satisfação conjugal, de acordo com os estudos, tanto o homem como a mulher procuram-na e desejam-na, só que de formas diferentes, estando a intimidade no topo da importância, tanto para homens como para mulheres. Segundo um estudo feito por Ferreira, Narciso, Novo e Pereira (2014), cujo objetivo era testar um modelo que explicasse o papel desempenhado pelo desejo sexual e a intimidade na relação entre diferenciação do self e a satisfação do casal, concluiram que existem múltiplos fatores que interferem nesta satisfação, sendo que para as mulheres, quanto maior for a diferenciação do self, maior será o desejo sexual. Mas de facto, podemos ver que a intimidade ocupa um lugar muito importante para a satisfação conjugal tanto para os homens do que para as mulheres. Segundo Bowen (1978), o nível de diferenciação do self de cada um dos elementos do casal é fundamental para a sua capacidade em alcançar intimidade no casamento.



Outro aspeto importante, ainda do estudo de Imppett, Finkel, Stachman et Gable, (2008), é que o conceito de satisfação sexual no casal que é bastante subjetivo. Muitas vezes, as mulheres queixam-se de falta de desejo porque têm como referência o desejo sexual do parceiro, ou vice-versa. Ou seja, a satisfação sexual está fortemente ligada ao desejo, tendo em conta que este é um dos principais motivos para que não haja relações sexuais com a frequência que o casal desejaria.

Mas então o que é o desejo? Existem várias definições. No entanto escolho esta, por ser uma das mais atuais.

O desejo sexual define-se como a motivação para iniciar a interação sexual. Contudo, não existem parâmetros objetivos que traduzam a “intensidade ou frequência do desejo”. Como já se viu, desde a década de 2000 que se reconhece que o desejo espontâneo não é uma realidade constante ou um pré-requisito para a resposta sexual em todas as mulheres, mesmo para as que sentem satisfação com a sua vida sexual.

Como se sabe agora, “pode ser o início” ou surgir em resposta à excitação criada por estímulos físicos (genitais e extragenitais) e psíquicos (fantasias ou memórias). Podem consistir num toque, cheiro, olhar ou recordação, numa música ou num murmurar ao ouvido. Para quem se sente receptiva, esta estimulação erótica ou sexual desencadeia uma resposta sexual em que o desejo se desenvolve em simultâneo com a excitação sexual. (Vicente, 2019; pag 85 2019)

Tendo em conta, a perspetiva histórica da sexualidade no casal, é importante o terapeuta ter noção de que, estamos a falar de mudanças muito recentes e por isso, há muitas mulheres, devido à nossa cultura mais conservadora e católica, que não desenvolveram uma relação próxima com o seu próprio corpo, como por exemplo, nunca se masturbaram e não conhecem o seu corpo, nem como este reage a determinados estímulos. Muitas vezes desconhecem os sinais de resposta sexual e ignoram-nos, levando-as a uma ideia de falta de desejo, que muitas vezes não corresponde há realidade. Muitas mulheres afastam-se do parceiro quando este a procura sexualmente, mas se escutassem o seu corpo, se dessem importância à resposta que o seu corpo dá (lubrificação da vagina e intumescimento do clitóris) aos estímulos sexuais (o toque do parceiro, uma carícia, um beijo, uma brincadeira mais sexual), e não interrompessem as investidas do parceiro, o desejo iria aparecer. A este desejo chamamos “desejo responsivo” e muitas vezes o que é apresentado pelo casal, principalmente, pela mulher, como sendo falta de desejo, é mais corretamente denominado como sendo falta de motivação.


O modelo de Rosemary Basson (2000), leva-nos a olhar de forma diferente para a resposta sexual, com várias etapas que se sucedem de forma circular. Fala do desejo espontâneo, acrescenta a ideia de estar disponível para a relação sexual, que existindo leva à excitação subjetiva (sentir-se excitada) e logo a uma excitação objetiva (biológica) e a um desejo responsivo. Daqui avançamos para uma relação satisfatória sexual, ou para ganhos não sexuais. Estas duas levam-nos a ter razões para iniciar ou aceitar novos estímulos sexuais. Mas quero dar destaque ao conceito de motivação, que leva à repetição deste círculo, e esta existe também porque existe satisfação sexual, mesmo que sem orgasmo. Como refere Lisa Vicente (2019), “Integrando toda esta informação percebe-se que o que acontece e se vive, individualmente ou em interacção, durante a resposta sexual pode ter vários guiões possíveis para diferentes pessoas e para a mesma pessoa em diferentes momentos da sua vida” (pag 85)

Assim sendo, quero realçar o desejo responsivo, vários autores defendem que em relações de longa duração, o desejo espontâneo é praticamente um mito. A ideia, também muito romantizada, desde que somos pequenos, com os filmes, as histórias de amor, de que o sexo advém de um impulso, de um desejo ardente que nos impele para a relação sexual, torna-nos a vivência da sexualidade muito mais complicada. Na realidade, toda esta preparação, antecipação não fará do nosso desejo, um desejo responsivo? Parece que sim. E assim surge a necessidade de planear, de valorizar mais o desejo responsivo. É preciso dedicarmo-nos e esforçarmo-nos para que exista uma vida sexual na nossa relação. Infelizmente as pessoas associam este esforço e planeamento a algo forçado, a uma obrigação, que retira toda a componente de “amor ardente e do desejo espontâneo da paixão. É preciso, na terapia quebrar estes preconceitos e convicções, e de alguma forma ajudar o casal a perceber, que este esforço pode inverter a situação, que o planeamento pode levar à expectativa e esta a um desejo. Caso não surja espontaneamente, deixar-se levar pelos estímulos eróticos e sexuais poderá levar a uma excitação sexual e a um desejo (responsivo), que os conduzirá para uma relação sexual satisfatória.

O que é isto de diferenciação do self, e que importância terá na relação de casal?

Não podemos falar de diferenciação sem falar de Bowen. Um professor, terapeuta familiar, estudou estas duas forças; que nos unem à nossa família; e que nos libertam para a nossa individuação. Segundo os seus estudos, Almeida e Martins (2008) referem, “Quando ocorre um desequilíbrio dessas forças em direção à união, ocorre fusão, aglutinação e indiferenciação.”. ( pp. 181-197 )

Segundo Bowen (1978), de acordo com o modelo de Sistemas Familiares, o grau de diferenciação do self de cada um dos elementos dos casais em jovens adultos, é resultado das suas experiências durante o seu crescimento nas suas famílias de origem. Quando os seus pais são emocionalmente fusionais, são incapazes de resolver as suas diferenças diretamente, e acabam por triangular com os seus filhos de forma a gerirem a sua ansiedade. Por sua vez, estes filhos, na jovem adultícia, adotam o mesmo estilo de regulação da ansiedade. Bowen fala em dois aspetos da diferenciação, no nível intrapsíquico a diferenciação envolve a capacidade de distinguir entre funcionamento emocional e intelectual, e a escolha do parceiro em como determinante o tipo de funcionamento que irá adotar, predominantemente, em qualquer situação. O outro aspeto é interpessoal, e envolve a capacidade de gestão do balanço entre autonomia (individualidade) e conexão (pertença), numa relação. Pessoas altamente diferenciadas estão confortáveis tanto com a autonomia como com a intimidade e são mais flexíveis nas negociações.

Num estudo realizado por Gubbins, Perosa e Bartle-Haring, (2010), cujo objectivo era perceber a relação entre a diferenciação do Self e o Modelo de Interacções Maritais de Gottman’s, verificaram que, os níveis de diferenciação do self dos maridos e mulheres, das suas famílias de origem, estão associados aos graus de “inundação” durante uma discussão, e aos níveis de satisfação vivenciados nos seus casamentos.

Ainda noutro estudo, realizado por Timm e Keiley (2011), que explorou a relação entre diferenciação do self, comunicação sexual , satisfação sexual e satisfação conjugal, os resultados mostraram que: a diferenciação do self não tinha efeito direto na satisfação sexual ou conjugal, no entanto estava significativamente relacionado com a comunicação sexual; o estilo de vinculação tem um efeito direto na satisfação conjugal mas não na satisfação sexual; a comunicação sexual está positivamente relacionada com a satisfação sexual e a satisfação conjugal. Fazem referência a Schnarch’s (1991), que acreditava que o que permitia que um casal falasse abertamente sobre as suas dificuldades sexuais, fantasias e necessidades sem ficarem completamente engolidos pela ansiedade, era a diferenciação e a intimidade. Referem também que segundo a teoria da Vinculação de Bowlby (1969), a natureza das relações primárias na infância, determinam o seu modelo de trabalho interno sobre o que esperar das relações próximas que vão estabelecendo. E que um estilo de vinculação seguro, leva a uma maior satisfação na relação (Brennan & Shaver,1995; Collins & Read, 1990; Pistole, 1989; Simpson,1990).

Mas a conclusão que retiro deste estudo, é que embora a diferenciação do self não contribua diretamente para a satisfação sexual ou conjugal, contribui bastante para a comunicação sexual entre o casal, que por sua vez, contribui para a satisfação sexual e conjugal. Também a vinculação adulta tem uma relação significativa com a satisfação conjugal, controlando a diferenciação do self, comunicação sexual e a satisfação sexual.

Existem ainda ouras variantes que contribuem para o desejo no casal, Carvalheira (2018) fala na importância do erotismo. Para si, o Erotismo “é tudo aquilo que é capaz de acordar o desejo de nos predispor para a atividade sexual. O erotismo é o que mobiliza o interesse, o desejo e a excitação sexual” (pp.30). Este Erotismo é primeiramente individual e tem 3 componentes: a imaginação, o sensorial e a transgressão.

A imaginação ligada à fantasia, sendo um lugar privilegiado e seguro onde podemos imaginar que papel desempenhar e de que forma, com quem, como, de forma totalmente livre. Um lugar entre o real e a ficção onde podemos arriscar, experimentar, jogar de forma segura.

O sensorial ligado aos nossos 5 sentidos, sendo o toque na pele bastante privilegiado, mas não retirando a extrema importância que existe nos sons, nas imagens e nos cheiros, este um sentido de enorme potencial para o desenvolvimento do erotismo.

A transgressão, aqui não falamos de perigo ou de situações perigosas e não consensuais, falamos do imprevisível, pequenas regras quebradas, atrevimento, uma certa rebeldia. Perel (2008) acrescenta que o erotismo “É a sexualidade transformada pela imaginação.... Os sentidos colocam-se ao serviço da imaginação, deixando-nos ver o invisível e ouvir o inaudível”(pp. 220). Na sua experiência verificou que pode ser vivida uma experiência erótica, sem que haja o ato sexual, embora ele seja muitas vezes imaginado. Os casais com inteligência erótica sabem que existe um sobe e um desce no desejo, ligado a um afastamento do outro, a um excesso de envolvência em projetos pessoais, mas que isso não quer dizer que o entusiamo possa voltar caso lhe prestem a devida atenção.

No seu curso para casais que querem recuperar o desejo, Perel refere que:

“Erotismo é cerimonial, ritual, celebração. É tudo o que aumenta a excitação, como a fantasia. Por isso é a imaginação. Normalmente, quando usamos a palavra fantasia, pensamos imediatamente nos brinquedos, nas histórias, e nos papéis. Não. É realmente algo que aumenta a qualidade da experiência além do mero fazer e estar feito. É o dia, o clima, o vento, o sol, a música, os sentidos. É tudo o que fortalece a experiência nos detalhes. A calma, o ritmo. Tudo isso faz parte do erótico.” (Perel, 2016; pp. 1)


E a intimidade? Intuitivamente diria que quanto mais intimidade, mais desejo sexual. Então porque é que mesmo os casais muito íntimos podem passar por esta dificuldade. Segundo esta autora, a intimidade vem com a familiaridade, quando um casal começa a conhecer os hábitos um do outro fica mais familiarizado, algo que traz tranquilidade, segurança e rotina e deixa o constrangimento de parte. Mas esta intimidade pode ser um inimigo do desejo sexual. Muitos casais relatam sentirem-se íntimos, ter uma boa relação, mas não existirem relações sexuais. Com a sua vasta experiência com casais percebeu que a sexualidade tem uma existência própria e que é mais do que uma forma de representação da relação amorosa. Considera que o perigo de duas pessoas se fundirem numa só, é deixar de ser possível existir ligação entre ambos, para que esta exista tem de haver distância. O que nos leva ao paradoxo do desejo sexual no casamento: onde é requisito fundamental a proximidade e a distância. E é este balançar que muitos casais têm dificuldade em construir. Podemos perceber isto no início de uma relação, em que a distância ainda existe, onde desejamos proximidade e intimidade. O que nos leva a pensar, o que já falamos sobre a diferenciação do casal, esta capacidade em manter autonomia e conexão e um sentimento de pertença.

“Alguns de nós estabelecem laços de intimidade com uma consciência muito nítida da sua necessidade de união, de proximidade, de não estarem sós, de não serem abandonados. Outros avançam para uma relação com forte necessidade de espaço individual: o seu instinto de sobrevivência inspira-lhes vigilância contra a possibilidade de serem devorados... Queremos intimidade, mas não tanta que nos sintamos presos nas suas malhas” (Perel, 2018; 2008; pag. ; 45;)

Ainda sobre o desejo levanta-se uma questão? Podemos desejar o que já temos? Muitas vezes a espera, a ânsia de ter é bem mais intensa do que a conquista. Então numa relação, o jogo, a ânsia do encontro, a sedução, as fantasias, todo o investimento e energia depositadas caem por terra quando temos, o “objeto” de nosso desejo, neste caso, o nosso parceiro(a). E aqui entra uma convicção que muitas vezes nos acompanha, principalmente em relações de longa duração, mas que é questionável: Será que os nossos maridos/mulheres, são nossos? É curioso que muitas vezes quando o marido não está porque foi em viagem ou quando se suspeita que pode existir outra pessoa a tentá-lo, o desejo aumenta subitamente. O mesmo se passa com os homens relativamente às mulheres.

Destaco ainda a importância da criatividade no desejo de um casal. Criar, construir, alterar rotinas, novas formas de estar no dia a dia, planear, de acordo com a realidade e possibilidade de cada casal. O Professor Coimbra de Matos ensinou-me muito sobre a importância da cooperação no amor, não só no casal, mas em todas as relações. É preciso cooperar, construir, criar em conjunto, na relação. É desta forma que o amor deveria ser vivido. Quando o questionei da dificuldade de alterar rotinas, principalmente quando temos filhos, respondeu-me que a mudança está em pequenas coisas “Por exemplo, por norma os casais dormem sempre do mesmo lado da cama. Porque não trocar, de forma deliberada?”

O desejo, ou melhor, a falta dele, é uma das principais causas da morte da sexualidade nos casais e algumas vezes leva mesmo à ruptura do casal. Causas, sintomas, tratamento e prevenção? Parece simples, mas não é, são muitos os factores envolvidos e é preciso uma abordagem mais holística e sistémica.

No entanto, é preciso trazer o casal para um novo paradigma, em que o desejo está ao serviço do casal e não o casal ao serviço do desejo. E para isso, como nos diz o Prof. Pedro Nobre, é preciso sair do sofá, é preciso que a sexualidade surja, mesmo que não seja espontaneamente, resgatando o desejo da monotonia, da rotina e do conforto.



Sara Semedo

30/11/2019

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