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Sexualidade no casal

Atualizado: 6 de Mai de 2020

Este trabalho foi elaborado em colaboração com a dra. Joana Rombert, no âmbito de uma formação em Terapia Familiar.



Terapia de Casal - Sexualidade

Sexualidade


No presente trabalho tecemos algumas considerações teóricas que se integram e cruzam no âmbito de uma intervenção sistémica na sexualidade do casal.


Segundo a Organização Mundial de Saúde:


A sexualidade é uma energia que nos motiva a procurar amor, contacto, ternura e intimidade; que se integra no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados; é ser-se sensual e ao mesmo tempo sexual; ela influencia pensamentos, sentimentos, acções e interacções e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental. (Sampaio D. (2012), p. 111 da obra Labirinto de Mágoas: As crises do casamento e como enfrentá-las).


Esta definição, apesar de todas as suas fragilidades, limitações e contornos pouco claros, é certamente uma das mais divulgadas de todas as definições de sexualidade.

A sexualidade é um aspeto central do ser humano ao longo da vida. Contém o sexo, género, identidades e papéis, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. É experienciada e comunica pensamentos, fantasias, desejos, crenças e atitudes, bem como, valores, comportamentos, práticas, papéis e relações.

Terapia conjugal e sexualidade


Segundo Jones (2004) parece universal a procura da intimidade sexual, física e social com um outro escolhido. A maioria das pessoas realiza essa procura em alguma fase da sua vida.

Neste sentido, a sexualidade ocupa um papel fundamental no ser humano enquanto pedra angular da relação íntima de um casal. É na intimidade que se revelam problemas marcados, ora pela distância ora pela proximidade, fulcrais na relação de casal, lugar onde são mais vivamente experienciados.

A terapia de casal ou conjugal propõe-se modificar as regras de interação da relação. A dimensão sexual na vivência conjugal é um dos aspetos que deve ser considerado na elaboração da teia compreensiva do que é o casal (Relvas, 2000).


Dificuldades a nível sexual do casal


De acordo com Relvas (2000), no que se refere à dimensão da sexualidade, os pedidos de ajuda surgem por diferentes causas:

· disfunções sexuais (aspectos fisiológicos);

· a vivência subjetiva das relações sexuais ou o tom emocional das mesmas (o sentimento de incapacidade de se relaxar, dificuldade em “se abandonar”, falta de carinho ou sentir-se desconfortável psíquica ou emocionalmente);

· insatisfação associada à frequência, contexto e tipo de experiências sexuais;

· o cansaço relacionado com o trabalho ou stress, o desejo de ter ou não relações ou mesmo a rigidez e monotonia do ato sexual.

Os pensamentos as emoções e os comportamentos que precedem, acompanham ou se seguem à atividade sexual não só se encontram por vezes, na origem de uma disfunção sexual, como também, fazem parte e definem a experiência sexual em si mesma (Martin, 1999).

Como é de nosso conhecimento, a relação sexual do casal constitui uma parte importante da sua relação total. As dificuldades sexuais inúmeras vezes são a expressão sintomática de um conjunto de problemas transversais ao casal. À medida que a relação conjugal evolui, também as dificuldades sexuais tenderão a diminuir (Barker, 2000).

No entanto, observa-se outros casos, em que as dificuldades ao nível sexual poderão ser o fator central ou isolado. Neste tipo de situações é necessária uma intervenção terapêutica mais especializada.


Terapia de Casal enquanto modalidade da Terapia Familiar Sistémica


Quando o casal procura ajuda numa primeira fase, anterior ao início da terapia deverá ser realizada uma articulação entre os motivos, queixas, fatores e problemas. Neste sentido será feita uma avaliação do casal tendo em conta os seguintes fatores:

· padrões habituais de interação social;

· estado de saúde física e mental dos elementos do casal;

· aspetos relacionais do casal ao nível não sexual (mitos, ciclo de vida do casal, relações de intimidade, comunicação, relações de poder, entre outros);

· aspetos relacionados com o desenvolvimento psicossexual e outras características individuais (história familiar, relacional, crenças transgeracionais, identidade sexual, imagem corporal, personalidade).

Assim, articulando os elementos resultantes desta avaliação, elaborar-se-á a hipótese sistémica que estará na base da definição do problema. Em função desta definição o foco da terapia poderá situar-se em diferentes campos: sexual, não sexual ou a combinação dos dois (Relvas, 2000).

O terapeuta familiar tem como objetivo a co-construção de uma história com um final diferente, emergindo a possibilidade de criar uma outra narrativa que não seja de “adeus” ou “viveram felizes para sempre”.

Neste sentido, como linha de base de intervenção poderá criar-se:

· um contexto no qual os elementos do casal encontrem novos significados para as palavras, emoções ou comportamentos;

· a adopção de uma postura neutra, de respeito e escuta por ambos os elementos do casal;

· visões múltiplas da sexualidade humana e natureza dos problemas relacionais.


O trabalho sobre a comunicação entre ambos é também essencial, permitindo e facilitando que os elementos do casal a estabeleçam de forma clara, direta e sem ambiguidades. É relevante por parte da intervenção do terapeuta, a atenção do mesmo à comunicação não verbal na dimensão analógica.

Para entender a sexualidade do casal é relevante a compreensão das suas dimensões dentro do que é a sexualidade feminina e masculina.

Num inquérito realizado em 2007 por Moura Ferreira e Villaverde Cabral (2010), numa amostra representativa de Portugal Continental, foi possível encontrar diferenças significativas entre géneros, nomeadamente no que diz respeito ao número de parceiros ao longo da vida (os homens referem ter mais parceiros do que as mulheres) e à iniciação sexual (os homens iniciam mais cedo, embora aqui esta diferença seja mais ténue).

A questão de sexualidade num casal não pode ser a soma das duas visões individuais. A interação complexifica e transforma o relacionamento íntimo.

Muitos casais aparecem com várias queixas relacionadas apenas com o ato sexual (a frequência e o desempenho). A sensualidade assume então um papel muito importante e muitas vezes esquecido pelo casal. Esta remete-nos para o cheiro, o toque, o sentir o corpo do outro de forma agradável, envolvendo-nos com a pessoa que amamos sem estar imediatamente ligadas ao ato sexual, dando espaço à ligação e proximidade.

Quando a sensualidade não existe, a pressão de um bom desempenho sexual ganha peso, pois o ato sexual passa a ser o único momento de envolvimento do casal. Se o casal não sabe fazer a passagem da paixão para o amor poderão surgir dificuldades sexuais relacionadas com a perda da sensualidade. No livro do amor conjugal a paixão é apenas o primeiro capítulo (Sampaio 2012, p.113). O amor não surge espontaneamente, depende da vontade.

A parentalidade é um desafio à sexualidade. As exigências cada vez maiores do casal parental, levam a uma menor disponibilidade temporal e emocional para o casal amoroso. A parentalidade exige que os pais se tornem cada vez mais disponíveis, atentos e estáveis, enquanto o erotismo e a sexualidade mobilizadora implicam aventura e imprevisibilidade. (Sampaio, 2012, p118).


Em jeito de conclusão, a sexualidade no casamento deverá ser estimulada, de alguma forma planeada, intencionada e o caminho será a sensualidade; com mais toque e menos palavras. Um relacionamento sexual por excelência, não será também um casamento entre a atração e a envolvência emocional, constituindo-se ambos numa dialética?


Dra. Joana Rombert

Dra. Sara Semedo

2/02/2017

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